Desde o dia em que tu nasceste, eu criei a
ilusão, dentro de mim, que poderia caminhar por ti.
Imaginei que colocaria teus pés sobre os meus e
te levaria pelos caminhos que eu julgasse mais tranqüilos e seguros. Dessa maneira, tu nunca feririas teus pés
pisando em espinhos ou em cacos de vidro e jamais se cansaria da
caminhada, nem mesmo precisarias decidir qual estrada
tomar.
Isso seria eternamente minha
responsabilidade.
...e foi assim durante um bom
tempo, caminhei por ti, para ti.
De repente, o tempo veio me avisar bruscamente
que essa deliciosa tarefa não faria mais parte dos meus
dias.
Teus pés cresceram e eu já não conseguia mais
equilibrá-los em cima dos meus, daí quando eu menos esperava eles
escorregaram e alcançaram o solo.
Hoje sou obrigada a vê-los trilhar caminhos nos quais os
meus jamais os levariam e ainda tento detê-los
insistentemente, mas só raríssimas vezes consigo. Agora só me é
permitido correr com os meus junto aos teus e em certos
momentos teus passos são tão largos que quase não posso
acompanhá-los.
Atualmente, assisto aos teus tropeços sempre pronta
para levantar-te das tuas quedas.
Por vezes, tu me estendes as tuas mãos em busca
de socorro, outras, mesmo estando estirado ao chão e ferido, insistes em
levantar-te sozinho por puro orgulho ou para me provar que já és capaz de
erguer-te após teus tombos e curar-te de tuas próprias
feridas.
Assim vamos vivendo e sinto uma saudade imensurável
daquele tempo que precisavas de mim para conduzi-lo, pois era bem mais fácil
suportar teu peso sobre meus pés, do que sobre meu coração.
No entanto, já consigo compreender como a vida é sábia.
Percebo, finalmente, que em algum momento tu precisaste mesmo desbravar
teus caminhos independente de mim, afinal não tarda muito, serei eu
que precisarei de teus pés sob os meus e tu só terás forças para me
conduzir porque te permiti caminhar por um bom período sozinho, aprendendo
assim a difícil tarefa de viver.
Que tu tenhas a resistência necessária para suportar meu
peso sobre teus pés como eu tive para suportar os teus.
É
bem verdade que farás isso por um tempo inferior ao que eu fiz,
mas como eu, é provável que tenhas que fazê-lo com mais alguns pés sobre os
teus, os dos teus filhos. Não, claro que não é uma tarefa fácil, mas se eu
consegui, tu também conseguirás porque plantei em teu coração o melhor e mais
poderoso aditivo para que suportes tanto peso, o amor!
10/03/2003
Dedicado às minhas
filhas
Alessandra e
Vanessa